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Meu primeiro contato com Fazendo Filmes, o livro de Sidney Lumet, foi em 2004, quando estudava audiovisual em Salamanca e paguei uma cadeira de Guión Cinematografico. Naquela época, Élbia, a professora, passou uma xerox do segundo capítulo do livro que trazia a pergunta fundamental: “os escritores são necessários?”. Li o texto para uma aula e lembro que achei interessante, mas não me acrescentou muito porque meu espanhol ainda era fraco e tive dificuldade para entender os detalhes.

Apesar de o lançamento do livro nos EUA ter sido em 1995 e eu só ter ouvido falar dele em 2004, somente mês passado, revendo meu material da Espanha, me interessei de novo pelo livro. Fui à livraria e encomendei. Recomendo a qualquer pessoa.

Se você quer trabalhar com cinema, leia. Se é um curioso e quer saber mais sobre os bastidores, leia. Se já trabalha como diretor ou roteirista ou diretor de arte, leia. Não é que seja uma obra-prima, nem que vá mudar a vida de ninguém, mas Fazendo Filmes é uma narrativa simples que conta os detalhes do dia-a-dia de uma produção cinematográfica, desde a idéia inicial do roteiro até a distribuição. E é interessantíssimo.

Sidney Lumet é diretor de filmes como Doze Homens e Uma Sentença, Assassinato no Expresso Oriente, Rede de Intrigas e Um Longo Dia de Viagem Dentro da Noite, pra ficar em alguns. Trabalhou com Al Pacino, Katherine Hepburn, Marlon Brando, Henry Fonda, Vanessa Redgrave, Ingrid Bergman. Digo isso para que, quem leia, possa tirar as suas próprias conclusões sobre a experiência de Lumet como diretor.

Fazendo Filmes é essencialmente um diário em que Sidney Lumet registra suas impressões sobre cada pequeno aspecto do filme, cada reação dos atores, cada decisão que ele mesmo precisou tomar.

Quem se interessou, pode comprar aqui.

[ JR ]

Os filmes com algo de irlandês em geral se limitam a mostrar aquela boa e velha narrativa sobre o IRA. Outros vão um pouco mais além do óbvio-1 e caem no óbvio-2: Colin Farrel tão másculo e grosseiro, caprichando no sotaque típico de Dublin.

Para quem se satisfaz com a idéia de que duendes e leprechauns são a identidade oficial da Irlanda, o filme Garage cai como uma luva apertada. É um filminho meio sem jeito e corajoso porque trata de um dos temas mais deprimentes e talvez menos comerciais da Irlanda no momento. Mostra o lado rural da Irlanda que vem perdendo rapidamente a sua identidade nesses tempos de Celtic Tiger. Por enquanto quase todo o dinheiro que invadiu o país na última década está lá pelas bandas de Dublin. E esse filme mostra bem o sentimento de abandono que existe nas áreas rurais do país.


Josie é o personagem principal, que vive toda a sua vida praticamente isolado em um povoado minúsculo, sendo o único responsável pelo “posto de gasolina”, que ironicamente nomeia o filme. A ação é lenta e mostra como é delicada a relação do personagem com sua condição de zé-ninguém: a ingenuidade e irrelevância da sua vida, o vínculo com a natureza, a falta de esperança, o relacionamento com os moradores do povoado. O filme é quase um documentário sem narrador; as situações são tão possíveis e irlandesas que às vezes dá um nozinho na barriga.

O sotaque irlandês não é muito convidativo, então valeria a pena buscar uma versão com legenda. A curiosidade é que o ator Pat Shortt (Josie) é um dos maiores comediantes da Irlanda e por isso talvez o filme tenha sido classificado como comédia. Com a história se passando no verão, dá até pra tapear a audiência com essa mentirinha de comédia. Ficamos aqui à espera de que algum diretor tenha a coragem de gravar um filme que se passe no inverno irlandês. Então eu direi, das duas uma: não assista, ou não planeje férias para cá.

[ QS ]

O LWB tem uma nova colaboradora. Direto do interior da Irlanda, nossa correspondente internacional, Quinha Santanna. Para selar as boas-vindas, uma música pra receber a moça letrada e uma dica de filme para os leitores sedentos. Ambos de/sobre Noel Rosa.

A música

Mulher Indigesta (Baixar)
Mas que mulher indigesta! (Indigesta!)
Merece um tijolo na testa
Essa mulher não namora
Também não deixa mais ninguém namorar
É um bom center-half pra marcar
Pois não deixa a linha chutar
E quando se manifesta
O que merece é entrar no açoite
Ela é mais indigesta do que prato
De salada de pepino à meia-noite
Essa mulher é ladina
Toma dinheiro, é até chantagista
Arrancou-me três dentes de platina
E foi logo vender no dentista


O filme

Noel – Poeta da Vila (2006)
Para os curtidores de samba, o filme deve valer umas três estrelas. Baseado nas principais músicas, ou pelo menos as mais conhecidas do compositor, o filme faz uma inter-relação interessante entre a obra e a vida do Poeta da Vila. Destaques para Rafael Raposo (Noel Cuspido), a fotografia, muito boa quando faz parte da cena e não quer ser a cena inteira, e para a seqüência final com a interpretação de “Último desejo” (Nunca mais quero o seu beijo, mas meu último desejo você não pode negar. / Se alguma pessoa amiga pedir que você lhe diga / se você me quer ou não. Diga que você me adora. / Que você lamenta e chora a nossa separação. / Às pessoas que eu detesto, diga sempre que eu não presto. / Que meu lar é o botequim, que eu arruinei sua vida. / Que eu não mereço a comida que você pagou pra mim.). Dizer mais o que…?

Mais info:
Melhor Direção de Arte, Melhor Edição de Som e o Prêmio Especial “Orgulho de Ser Brasileiro”, no Festival de Cinema Brasileiro de Miami.
Ganhou o prêmio de Melhor Filme – Júri Popular, na Mostra de Tiradentes.
Indicação ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro de Melhor Figurino.
Exibido na mostra Première Brasil, no Festival do Rio 2006.

Site: http://noelpoetadavila.uol.com.br

[ DV ]